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Tragédia entristece, endurece, mas o que faz o coletivo? Reage, diz Cristina Kupfer

By 27 de março de 2021 No Comments

Matéria de Cristina Kupfer no Jornal o Estado de São Paulo de 22 de março de 2021.

Tragédia entristece, endurece, mas o que faz o coletivo? Reage, diz psicanalista

Professora da USP Maria Cristina Kupfer fala sobre como lidar com a desesperança no pior momento da pandemia. Ela é convicta de que o ser humano tem mais recursos psíquicos do que imagina

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2021 | 15h00

A psicanalista e professora da Universidade de São Paulo (USP) Maria Cristina Kupfer tem uma visão que soa otimista – e até dura – diante de um sentimento comum de desesperança com a pandemia no País, que completa um ano ainda pior do que em março de 2020. Mas ela é convicta da capacidade do ser humano de reagir. “Quando você acha que não tem mais recursos psíquicos para lidar com alguma coisa, você ainda tem muito mais do que pensa”, diz ela, que é uma das pioneiras no Brasil na articulação entre Psicanálise e Educação e autora de livros na área. Para a especialista, adultos e crianças, depois desse momento de luto das primeiras semanas de novos isolamentos e escolas fechadas, vão se adaptar novamente.

“Houve um recrudescimento agora, passado esse sentimento de ‘meu deus, vai começar tudo de novo’, a gente vai ver as respostas de vida. As pessoas, em geral, não se deixam levar pelo mortífero”, diz.  Como exemplo, ela cita professores e escolas que se reinventaram para educar online e outras criações durante o ano passado.

Maria Cristina acredita que conscientizar-se de que a pandemia ainda pode durar muito ajuda a recomeçar agora, mas que não se pode responsabilizá-la por todos os problemas do Brasil, na educação, na saúde etc. “Se olhar com uma certa distância, é um grãozinho, perto de tudo que já acontecia. Achar que a pandemia é a culpada de tudo causa uma cegueira que serve ao reacionário, porque apaga o que tem que ser visto de fato.”

Como enfrentar essa fase atual em que a pandemia completa um ano com recorde de mortes, UTIs lotadas, novas restrições?

Todos estão muito assustados. Essa dimensão mortífera está pesando sobre as nossas cabeças mais do que antes. Só que isso é muito dialético, junto com a pulsão de morte, está a pulsão de vida. Quanto mais pesa para as pessoas a dimensão do mortífero, mais existe uma resposta, um movimento de impedir que isso tome conta das nossas vidas. Isso falando da maioria das pessoas, há os que se deixam afetar profundamente e temos as depressões. Mas a tendência geral é responder com mais ânimo e criativamente, foi o que aconteceu ano passado. As escolas responderam de uma maneira incrível, por exemplo, aquilo que os professores fizeram, as invenções a partir das plataformas, puderam alfabetizar crianças na tela. E não é porque as pessoas são maravilhosas, mas é porque é a dinâmica que se faz diante do fechamento, da mortalidade. Passado esse momento de ‘ai meu deus, vai começar tudo de novo’, a gente começa a ver surgindo as respostas de vida. As pessoas respondem com a vida, não podem fazer de outra forma.

Só uma minoria vai sofrer de doenças mentais?

Sim, mas claro que tem um aumento porque há um elemento externo. Mas não se pode dizer que a pandemia provoca um estrago em nível de saúde mental incontornável, irreversível. A gente não pode negar a tragédia, o desastre, que poderia ser evidentemente menor. Não quero dizer que não precisa se preocupar, mas as pessoas acabam encontrando formas de reagir, de fazer viver, fazer aparecer a vida.

Muita gente está frustrada porque acreditava que já estava acabando.

Tem que pensar que não acabou, a perspectiva de que temos muito tempo pela frente ajuda a recomeçar agora. Não se pode dizer que vamos voltar para normalidade, tem que pegar de novo o fôlego e continuar lembrando que não vai acabar tão cedo. Os planos que nós tínhamos para agosto vão ter que ser adiados. Nós já vimos esse filme, ok, vamos ver de novo.

Difícil, não?

A tendência é a gente achar que as pessoas ficam doentes com essas coisas, mas não, é o contrário. Nós temos instrumentos psíquicos para reagir às tragédias, nós não ficamos doentes assim tão facilmente, ficamos tristes. Aí a tendência é misturar. A tragédia entristece, endurece, mas o que faz o coletivo? Reage. Produzindo formas de reação para não adoecer. As pessoas criam coisas, as pessoas criaram milhares de coisas nos seus 10 metros de apartamento no ano passado. Freud dizia: para não adoecer, as pessoas amam. A ideia é que quando você acha que não tem mais recursos psíquicos para lidar com a alguma coisa, você ainda tem muito mais do que pensa que tem. As desgraças vêm e a gente vai se adaptando.

Para os pais é mais difícil ter que recomeçar com as escolas fechadas de novo?

Os pais estão afundados, sim, essa situação tem muitos inconvenientes, mas vamos aproveitar para ver coisas que nós não víamos antes. Muitos, no ano passado, viram a relação entre irmãos melhorar, por exemplo. A tendência é dizer que os pais estão reclamando muito porque as crianças estão em casa, mas vi ao mesmo tempo pais ouvindo coisas dos filhos que não ouviam antes, se readaptando, retomando, se reapropriando de uma função que tinha sido delegada para as escolas.

E as crianças também têm essa capacidade?

A tendência contemporânea dos pais é de dar muito espaço para a fala das crianças, o que é bom, de colocar as crianças nessa posição de sujeito, que é muito bom. Mas eles se esquecem que essas crianças ainda estão muito na dependência da fala do adulto. Então, tudo depende da posição do adulto. Se o adulto diz, com firmeza: ‘olha, não tem escola, é assim, estamos num momento em que as coisas mudaram, venha comigo nesse novo movimento, eu seguro sua mão’. Para a criança é muito aliviante, o adulto sabe, vou atrás do adulto. A gente tem a tendência de achar que eles não vão conseguir se controlar, mas vão. As crianças gostam disso, preferem isso, principalmente nos momentos de grande turbulência.

E as crianças que se recusam a voltar para o ensino online?

Os pais podem ser sensatos, eles sabem que não dá pra forçar muito. Tem uma ideia de ‘doce forçagem’, que ao mesmo tempo que tem a doçura, a compreensão do que é o sofrimento de obrigar uma criança a fazer algo que ela não quer, também se força. E diz: talvez hoje você não vá, mas amanhã precisa. Não é se entregar à recusa da criança, ela não pode ter esse poder, é bom que ela não tenha. Forçar dessa maneira é estruturante, é organizador. Passado esse momento do recomeço, da frustração de pensar que já tinha acabado, os pais vão se reposicionar. Passa uma semana, duas, é luto, é uma frustração, mas nós somos adultos.

Essas interrupções da escola podem diminuir a consciência de que a escola é importante?

Sim, isso realmente acontece. Aliás, já acontecia, antes da pandemia, já há muitos estudos sobre como os jovens apostam cada vez menos no valor da escola na vida deles. E obviamente a pandemia reforça isso. Mas vamos olhar para o que vinha acontecendo e não só para a pandemia.Temos que ver se a escola está cumprindo seu papel social, civilizatório, de dar as bases para as novas gerações estarem no mundo. Se não, a pandemia vira uma culpada de tudo. E ela é a ponta do iceberg, perto de tudo que é estrutural. A pandemia produz uma cegueira.  Parece que se quer dizer que a pandemia é uma grande interrupção no momento civilizatório de progresso do mundo. Se olhar com uma certa distância, é um grãozinho, perto de tudo que já acontecia, de problemas que já existem. Claro que tem milhares de providências emergenciais que precisam ser tomadas. Mas a pandemia acaba nos cegando e isso serve ao reacionário, porque apaga o que tem que ser visto de fato.

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