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Desqualificar o tratamento do autismo pelo viés psicanalítico é negar o direito à escuta e respeito à singularidade do sujeito autista e de sua família.

By 10 de abril de 2026No Comments

A equipe do Lugar de Vida vem a público reafirmar seus princípios de ação e sua posição ética frente ao atendimento de pessoas autistas e suas famílias. 

Consideramos que: 

  1. A afirmação de que a intervenção psicanalítica com autistas é exercida por meio do uso de “metáforas” e/ou do “divã” é reducionista e falaciosa. O trabalho com crianças e adolescentes autistas é mesmo orientado pela teoria psicanalítica sobre a constituição psíquica e pelo compromisso ético do clínico com a escuta do sujeito e com o acolhimento de seu sofrimento, bem como do sofrimento de sua família. Mas o tratamento de orientação psicanalítica destinado a sujeitos autistas não se baliza pelas mesmas técnicas e configurações clínicas adotadas para o atendimento de sujeitos adultos e neurotípicos, justamente porque eles possuem outra lógica de funcionamento.

  2. O tratamento de orientação psicanalítica realizado pelo Lugar de Vida tem como base o princípio da Educação Terapêutica, um conjunto de procedimentos terapêutico-educacionais de caráter interdisciplinar que visa ao restabelecimento da estruturação psíquica, de linguagem e de aprendizagem de sujeitos autistas e é dirigido às crianças/adolescentes, a seus pais e a seus professores.

  3. A Educação Terapêutica trabalha para sustentar a presença de um sujeito na criança/adolescente e produzir mudanças na sua relação com o próprio corpo, nas suas manifestações no brincar e na sua capacidade de fantasiar; na sua posição frente às normas e leis, bem como no modo de se relacionar com seus semelhantes. A intervenção é realizada pelo reconhecimento e valorização da singularidade de cada autista, permitindo que ele seja protagonista, e não objeto de seu tratamento e de sua escolarização.

  4. O Lugar de Vida entende que as famílias de pessoas autistas têm o direito de participar das decisões terapêuticas de seus filhos, em diálogo com profissionais e com base em práticas reconhecidas no campo clínico. Quando especialistas afirmam que essa escolha está errada, desautorizam os pais em seu saber sobre seus filhos e em suas funções educativas/de transmissão cultural, contribuindo para a culpabilização dos pais em relação às suas decisões.

  5.  O Lugar de Vida vê com preocupação a associação direta entre a saúde materna e o desencadeamento do autismo, como no caso do uso de antidepressivos ou da obesidade gestacional, o que acaba por culpabilizar as mães pelo desenvolvimento de um quadro de autismo em seus filhos. Na contramão, o Lugar de Vida trabalha vigorosamente para o fortalecimento da posição parental de autoridade e transmissão da língua materna e da cultura na educação de seus filhos.

  6. Considerando a heterogeneidade do quadro atualmente definido como autismo, nem o Lugar de Vida, nem os autistas e seus familiares, consideram plausível a ideia de uma única linha terapêutica aplicável a todos os casos. Mesmo as abordagens mais amplamente estudadas ainda apresentam limitações quanto às evidências científicas disponíveis. Diante da complexidade desses casos, torna-se cada vez mais clara a importância da articulação de diferentes abordagens na construção de um projeto terapêutico singular para cada criança. O Lugar de Vida preza pela pluralidade e diversidade no debate sobre esse tema tão delicado e complexo e pela possibilidade de pessoas autistas e familiares percorrerem um caminho próprio de tratamento.

  7. O Lugar de Vida também repudia a correlação direta entre o termo “normal” em oposição ao termo – “autista”, uma vez que considera que o sujeito autista funciona a partir de uma lógica diferente do sujeito neurotípico e que a condição humana é sempre a da diversidade e não a da normatividade.

  8. O Lugar de Vida trabalha para a inclusão de crianças e adolescentes autistas em escolas regulares sempre que possível (como escolha prioritária), contando com uma rede de apoio interdisciplinar e intersetorial, com a construção de um projeto educacional que visa a aprendizagem da criança e sua inclusão nas atividades escolares. Cabe lembrar que, antes da instituição do arcabouço legal que garantiu o direito à educação inclusiva, crianças e adolescentes autistas eram frequentemente apartados do convívio social e mantidos em contextos institucionais segregados, prática associada ao agravamento de sintomas e à restrição de seu desenvolvimento. Tem sido muito comum também, encontrarmos na escola uma situação onde a entrada do campo da saúde (muitas vezes protagonizada pelas equipes de abordagem cognitivo-comportamental) coloca os professores e outros educadores da equipe em escolar em uma posição de “aprendizes do autismo”, desconsiderando todo e qualquer saber construído na escola sobre o aluno e sobre a educação.       O Lugar de Vida acredita que a Educação produz efeitos de tratamento em pessoas autistas e por essa razão passou também a desenvolver o Projeto Escolas Protagonistas em parceria com grandes escolas de São Paulo. Trata-se de um esforço conjunto para a construção de princípios e pressupostos educacionais que orientem e sustentem o trabalho inclusivo escolar.

  9. O trabalho com a alfabetização e o letramento de sujeitos autistas não é uma banalidade. Ao contrário, ele é considerado uma estratégia fundamental para que eles possam vir a falar em nome próprio, mesmo quando não podem fazê-lo pela fala oralmente articulada. Em inúmeras autobiografias, os autistas foram contundentes ao afirmar que o símbolo gráfico é mais apreensível e previsível do que o sonoro e, por essa razão, passível de tornar-se uma modalidade alternativa à fala e por meio da qual eles podem se dizer.

  10. A eficiência de uma intervenção não se mede pela quantidade de horas, mas pela qualidade da relação estabelecida com o outro ao longo do tratamento. Nesse ponto, destacamos um dos principais diferenciais do trabalho do Lugar de Vida,  o Grupo Heterogêneo em Educação Terapêutica. A partir dessa prática clinicamente consolidada e teoricamente embasada, podemos afirmar com propriedade que o encontro de uma criança com outras crianças pode “ensinar” mais do que muitas horas de contato com adultos. Por meio deste trabalho constatamos que a diversidade e riqueza dos encontros entre as crianças promovem mudanças subjetivas, de linguagem e de aprendizagem mútua por meio da operação da identificação entre semelhantes. Os efeitos na interação social, na socialização, na aprendizagem das regras, no significado das atividades coletivas, enfim, do que chamamos de laço social ou de alteridade são surpreendentes.
  11. O Lugar de Vida, que nasceu na USP e existe há mais de 35 anos, é amplamente reconhecido no Brasil e no mundo como uma instituição de referência no tratamento e no acompanhamento escolar de crianças e adolescentes autistas; no desenvolvimento de pesquisas acadêmicas; e na formação de profissionais, pesquisadores e estudantes das áreas da Saúde Mental e da Educação. O Lugar de Vida consolidou-se no campo de estudos e pesquisas a partir da busca constante por fundamentos teóricos capazes de conferir consistência e solidez às práticas clínicas e educacionais. Atualmente, utiliza dois instrumentos nacionais validados cientificamente para a avaliação, acompanhamento e tratamento de crianças: o IRDI – Indicadores Clínicos de Risco para o Desenvolvimento Infantil (Kupfer et al., 2009) e o APEGI – Acompanhamento Psicanalítico de Crianças em Escolas, Grupos e Instituições (Kupfer et al., 2018; 2020), ambos desenvolvidos em estudos validados pelos principais órgãos de fomento à pesquisa do Brasil.